Jaylson SpencerCrónicas & reflexões
Jaylson Spencer ao ar livre, com uma cidade ao fundo
← Voltar às crónicasSociedade · Opinião

Tanta atenção ao que não muda nada

Por Jaylson Spencer · 3 min de leitura

Tanta curiosidade pela vida dos outros e tão pouca vontade de questionar aquilo que afecta a nossa.

Uma crónica de Jaylson Spencer

Às vezes, fico a observar aquilo que nos prende a atenção e custa-me perceber. Há assuntos que mexem com a nossa vida e com o futuro dos nossos filhos, mas que passam quase sem discussão. Depois aparece uma polémica sem grande significado e parece que ninguém quer ficar de fora.

Para isso, há tempo. Há comentários longos, respostas e discussões que duram dias. Há até quem procure publicações antigas para descobrir mais um pormenor sobre pessoas que nunca conheceu.

Não escrevo isto por achar que temos de viver preocupados a toda a hora. Depois de um dia de trabalho, também quero descansar a cabeça. Uma pessoa precisa de se rir e de falar de coisas leves. O que me faz confusão é ver como, tantas vezes, os assuntos que nos afectam ficam para depois. E esse depois nunca chega.

Queremos saber por que razão duas pessoas deixaram de se falar, mas nem sempre mostramos a mesma curiosidade quando uma promessa feita à população fica por cumprir. Comentamos a roupa de alguém, mas passamos à frente de uma notícia sobre um problema que amanhã pode bater à nossa porta.

Porquê? Será cansaço? Será a sensação de que perguntar não serve de nada? Ou habituámo-nos tanto a certas situações que já nem esperamos uma explicação?

Penso muito nisso quando olho para São Tomé e Príncipe. A proximidade entre as pessoas podia ajudar-nos a conversar com mais abertura. Mas, por vezes, parece acontecer o contrário. Questionar uma decisão torna-se um problema porque envolve um conhecido, um amigo ou alguém do partido que apoiamos.

A partir daí, já pouco se fala da pergunta. Começa-se a discutir quem a fez e quais serão as suas intenções. Entretanto, a resposta continua por dar.

Eu não preciso de ser inimigo de alguém para querer perceber uma decisão. Posso respeitar uma pessoa e discordar dela. Posso até ter-lhe dado o meu apoio e, ainda assim, achar que deve explicações. Não vejo contradição nisso.

Também não me coloco fora desta reflexão. Todos podemos dar por nós a perder tempo numa discussão sem interesse, enquanto deixamos passar algo que merecia a nossa atenção. A questão é perceber quando isso deixa de ser uma distracção ocasional e passa a ser um hábito.

Porque a nossa atenção tem limites. O tempo que gastamos a acompanhar cada detalhe da vida dos outros faz-nos falta para olhar para a nossa própria realidade.

Não quero uma sociedade onde toda a gente pense como eu. Gostava de ver mais pessoas à vontade para perguntar, mesmo quando a resposta pode incomodar alguém de quem gostam.

Da próxima vez que uma polémica ocupar o nosso dia inteiro, talvez valha a pena parar um pouco e pensar: o que é que está a passar despercebido enquanto estamos todos a olhar para isto?

Jaylson SpencerDe São Tomé. A partir do Luxemburgo.
Continua a ler