Viver longe não me faz desistir do lugar de onde vim. Quero um país onde ficar também possa ser uma escolha com futuro.
Há uma coisa que não muda em mim: quero ver São Tomé e Príncipe bem. Vivo no Luxemburgo, mas continuo ligado ao lugar de onde vim. A distância mudou o meu dia a dia. Não mudou o carinho que tenho pelo meu país.
Não espero um país perfeito. Quero um país onde abrir a torneira e ter água em casa não seja um motivo de alívio. Onde um jovem possa pensar no futuro sem sentir que a única saída é comprar uma passagem e partir.
Sei que, estando fora, não vivo cada dificuldade da mesma maneira que quem está aí. Seria injusto fingir o contrário. Mas também não acho que emigrar nos retire o direito de ter uma opinião. Podemos estar longe e continuar a preocupar-nos. Podemos construir a vida noutro lugar sem desistir daquele onde nascemos.
A beleza das nossas ilhas enche-me de orgulho. Só que uma fotografia bonita não substitui aquilo de que uma família precisa para viver com dignidade. Quero que o orgulho de mostrar São Tomé a alguém venha acompanhado da satisfação de saber que o país também cuida de quem lá vive.
É por isso que não confundo amor ao país com silêncio. Se alguma coisa está mal, quero poder dizê-lo. E, quando alguma coisa estiver bem feita, quero ter a liberdade de a reconhecer, mesmo que venha de alguém com quem não concordo politicamente.
Não quero escolher a minha opinião depois de ver a cor do partido. Quero olhar para aquilo que foi feito. Uma decisão que prejudica a população não fica melhor porque foi tomada por alguém de quem gosto. Uma boa decisão também não deixa de o ser porque veio do outro lado.
Quem governa deve aceitar perguntas e explicar as suas decisões. Isso faz parte da responsabilidade de ocupar um cargo público. E nós, enquanto cidadãos, precisamos de conseguir cobrar essas respostas sem transformar cada conversa numa guerra entre apoiantes e adversários.
Também não acredito que tudo se resolva apenas mudando quem está no Governo. Quero poder exigir responsabilidade a quem governa e, ao mesmo tempo, reconhecer a parte que cabe a cada um de nós. O país não melhora quando desculpamos nos nossos aquilo que condenamos nos outros.
O Luxemburgo faz parte da minha vida desde 2008. Foi aqui que construí uma parte do meu caminho. Mas não preciso de diminuir São Tomé e Príncipe para reconhecer o que encontrei fora. O que desejo é que ficar no meu país também possa ser uma escolha com futuro.
Quero poder voltar e ouvir mais pessoas dizerem que a vida melhorou. Sem precisarem de defender um partido. Sem terem de agradecer como um favor aquilo que lhes é devido como cidadãos.
São Tomé e Príncipe merece mais. E dizer isso, para mim, é uma forma de continuar a gostar do meu país.
