Podemos conhecer uma pessoa há muitos anos e, ainda assim, exigir que preste contas.
São Tomé e Príncipe é um país pequeno. Quase todos nos conhecemos, ou conhecemos alguém que conhece o outro. Essa proximidade podia ajudar-nos a cuidar melhor do que é nosso. Mas também nos custa caro quando uma amizade passa a valer mais do que a responsabilidade de prestar contas.
É difícil exigir explicações a quem cresceu connosco, a um familiar ou a alguém que um dia nos fez um favor. Só que, quando essa ligação nos leva a desculpar tudo, o país fica para trás. O que devia ser uma decisão em benefício da população passa a depender de quem conhece quem.
Há percursos na política que levantam perguntas legítimas. Quando o património de alguém cresce de uma forma que os rendimentos conhecidos não parecem explicar, perguntar de onde veio esse dinheiro não é inveja. É pedir transparência, sobretudo quando essa pessoa gere recursos públicos.
Isso não significa que toda a pessoa com dinheiro tenha roubado. Uma aparência de riqueza também não prova um crime. Mas ninguém devia usar essas verdades como desculpa para impedir perguntas. Quem ocupa um cargo público tem de aceitar que as suas decisões sejam fiscalizadas e que lhe sejam pedidas explicações.
Não podemos continuar a tratar o dinheiro do Estado como se não tivesse dono. Tem, sim. Pertence também à família que precisa de água em casa e ao doente que chega ao hospital à espera de encontrar condições para ser tratado. Cada recurso desviado faz falta na vida de alguém.
Eu vivo do meu trabalho e do meu esforço. Não dependo de favores políticos para dizer o que penso. Mas o direito de falar não é só meu. Quem depende de um emprego público ou tem um familiar na política também tem o direito de questionar sem ser intimidado ou chamado de invejoso.
Custa ver uma amizade acabar porque alguém criticou um dirigente, enquanto os problemas que afectam os dois continuam por resolver. Podemos conhecer uma pessoa há muitos anos e, ainda assim, exigir que responda pelo que faz no cargo que ocupa.
Eu quero ver São Tomé e Príncipe bem. E isso exige que deixemos de proteger os nossos à custa de todos os outros. O país não pode continuar refém das relações pessoais de quem chega ao poder.
