Podemos aceitar indignados, com lágrimas nos olhos, sem achar justo aquilo que aconteceu. É daqui que temos de começar.
Há alturas em que olhamos para a nossa vida e pensamos: não era aqui que eu queria estar. Fizemos planos, contávamos com certas pessoas, acreditámos que algumas coisas iam correr de outra maneira. Depois, chega o fim do mês e falta dinheiro. Ou chegamos a casa e temos um problema à nossa espera que já nem sabemos como resolver.
Nessas horas, custa aceitar a realidade. Ficamos zangados, procuramos explicações e perguntamos porquê nós. É humano. Ninguém recebe uma dificuldade de braços abertos.
Mas há uma conversa que também precisamos de ter connosco: que decisões minhas contribuíram para eu chegar aqui?
Nem tudo o que nos acontece é culpa nossa. Há doenças, perdas e injustiças que ninguém escolheu nem provocou. Não seria justo dizer a alguém que sofreu que foi essa pessoa que deu abertura ao sofrimento. Ainda assim, quando houve uma escolha nossa pelo meio, precisamos de conseguir olhar para ela sem fugir.
Às vezes, foi uma dívida que assumimos mesmo sabendo que não tínhamos condições. Outras vezes, insistimos numa situação apesar dos sinais de que nos estava a fazer mal. Reconhecer isso custa. Mas enquanto colocarmos toda a responsabilidade nos outros, podemos continuar a repetir aquilo que nos trouxe até aqui.
Assumir a nossa parte não é passar o resto da vida a castigar-nos. É perceber onde ainda podemos fazer alguma coisa.
Para mim, sair de uma fase difícil começa por aceitar o ponto em que estamos. Podemos aceitar indignados, com lágrimas nos olhos, sem achar justo aquilo que aconteceu. Aceitar é conseguir dizer: «Eu não queria estar nesta situação, mas é daqui que tenho de começar.»
Quem acredita em Deus pode encontrar na fé força para continuar. Eu acredito que podemos entregar a Deus aquilo que nos pesa e, ao mesmo tempo, fazer o que está ao nosso alcance. A oração pode acompanhar a decisão de pedir ajuda ou de corrigir um erro. Quem não tem essa crença também pode encontrar apoio e uma maneira de seguir em frente.
O que custa é respeitar o tempo que algumas mudanças exigem. Queremos sair depressa do aperto. Queremos dormir uma noite e acordar com tudo resolvido. E, nessa pressa, às vezes escolhemos uma saída que acaba por nos complicar ainda mais a vida.
Uma dívida dificilmente se resolve com outra que também não conseguimos pagar. Um erro não desaparece só porque deixámos de falar nele. Há coisas que precisam de ser enfrentadas aos poucos, por mais vontade que tenhamos de saltar essa parte.
Talvez hoje só consigas fazer uma chamada que andavas a adiar. Ou sentar-te, fazer as contas e admitir que precisas de mudar alguma coisa. Pode parecer pouco diante do tamanho do problema, mas já é uma decisão diferente daquelas que te mantinham parado.
Também há dias em que não vais ter força para avançar. Vais estar cansado, irritado com tudo, sem paciência para ouvir alguém dizer que tens de ser forte. Nesses dias, descansar ou pedir companhia pode ser o que consegues fazer. Não precisas de fingir que estás bem para merecer apoio.
E quando digo para não desistires, não estou a pedir que aguentes tudo até te destruíres. Há situações das quais precisamos de sair. Há planos que precisam de mudar. Deixar um caminho que nos faz mal também pode ser uma maneira de continuar a cuidar da nossa vida.
Nem sempre aparece alguém no momento em que precisamos. Por isso, se tens uma pessoa de confiança, fala. Diz o que se passa. Às vezes esperamos que os outros percebam o nosso silêncio, quando nem quem está perto imagina o peso que estamos a carregar.
Não sei quanto tempo demora a dificuldade de cada um. Seria fácil escrever «amanhã tudo estará bem», mas há problemas que levam tempo e deixam marcas. O que acredito é que o momento em que estamos não precisa de decidir tudo o que ainda podemos viver.
Olha para o que correu mal e procura perceber o que podes fazer de outra maneira. Sem te desculpares de tudo, mas também sem te condenares por tudo.
A vida que temos hoje traz as consequências de escolhas nossas e de acontecimentos que não controlámos. Agora, dentro das condições que temos, resta-nos cuidar da próxima decisão.
Talvez ainda não consigas ver a saída. Começa pelo que está ao teu alcance hoje.
