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A oração, por si só, não acaba com a pobreza

Por Jaylson Spencer · 4 min de leitura

Acredito em Deus. Mas há responsabilidades que não podemos entregar a Deus para depois ficarmos de braços cruzados.

Uma crónica de Jaylson Spencer

Acredito em Deus. Mas também acredito que há responsabilidades que não podemos entregar a Deus para depois ficarmos de braços cruzados.

Uma mãe pode pedir a Deus pela saúde do filho. Mas, quando chega ao hospital, precisa de encontrar medicamentos e alguém que o possa tratar. A fé pode ajudá-la a aguentar aquele momento. Não retira a responsabilidade de quem devia garantir que o atendimento funcionasse.

É aqui que, para mim, a conversa começa.

Quando alguém responde à pobreza apenas com um “é preciso ter fé”, fico a pensar no que essa resposta oferece a quem está a passar necessidades. Respeito quem encontra conforto nessas palavras. Eu próprio tenho momentos em que é na oração que procuro forças. O que me custa aceitar é que se use essa esperança para pedir às pessoas que se conformem com aquilo que está mal.

África não é um país. Seria injusto falar de todo o continente como se a realidade fosse igual em cada lugar. Também não se resume à pobreza. Por isso, não diria que África é a prova de que a oração não funciona. Diria que nenhuma população devia ter de esperar por um milagre para viver com dignidade.

Quem tem fome precisa de comer. Se há dinheiro destinado ao abastecimento de água, alguém tem de explicar por que razão a água continua sem chegar às casas. Dizer à população para ter paciência não substitui essa explicação.

Ter fé não obriga ninguém a ficar calado

Às vezes, parece que questionar é falta de fé. Como se exigir melhores condições fosse uma forma de ingratidão ou como se uma pessoa devesse aceitar tudo porque “Deus sabe o que faz”.

Eu não vejo as coisas assim.

Posso agradecer a Deus por estar vivo e, ao mesmo tempo, reclamar de um serviço que não funciona. Posso rezar pelo meu país e pedir contas a quem o governa. A minha fé não me impede de reconhecer uma injustiça.

Há dificuldades que uma pessoa não consegue resolver sozinha, por mais esforço que faça. Quem procura trabalho durante meses não precisa de ouvir que lhe falta acreditar. Pode estar a fazer tudo o que consegue e, ainda assim, encontrar portas fechadas.

Também precisamos de cuidado com a facilidade com que julgamos quem é pobre. De fora, é simples mandar trabalhar mais ou dizer que tudo depende da vontade. Outra coisa é viver num lugar onde o trabalho disponível mal chega para sustentar a casa.

A ajuda conta. As condições de vida também.

Uma comunidade que se junta para ajudar uma família está a responder a uma necessidade concreta. Quem leva comida a alguém ou acompanha uma pessoa doente faz diferença na vida dessa pessoa. Quando a fé leva a esse cuidado, há uma ajuda que se sente.

Mas essa ajuda não pode servir de desculpa para que os serviços públicos falhem sempre.

Uma família pode precisar de um cabaz hoje. Isso não dispensa a necessidade de ter um rendimento que lhe permita comprar comida no próximo mês. Ninguém devia ter de passar a vida a agradecer por receber o mínimo para sobreviver.

Quando penso em São Tomé e Príncipe, é isso que desejo: que as pessoas consigam viver do seu trabalho com alguma segurança. Que uma dificuldade não ponha imediatamente uma casa inteira em risco. Não me parece um pedido exagerado.

Há coisas que nos cabe fazer

Não escrevo isto para convencer ninguém a deixar de rezar. A oração faz parte da minha vida. Escrevo porque me incomoda ver problemas humanos tratados como se só pudessem ter uma solução divina.

Uma decisão tomada por um governante pode ser questionada. Uma verba pública pode ser fiscalizada. Se alguém falhou numa responsabilidade, deve responder por isso. Não precisamos de esperar por um milagre para fazer essas perguntas.

A fé pode dar-nos coragem para continuar, inclusive quando estamos cansados e não sabemos por onde começar. Mas há trabalho que continua nas nossas mãos.

Eu vou continuar a rezar pelo meu país. E vou continuar a querer saber o que está a ser feito para que as pessoas vivam melhor.

Jaylson SpencerDe São Tomé. A partir do Luxemburgo.
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